Segurança Pública
Policial que matou mãe de cinco filhos em Cidade Tiradentes é indiciada por homicídio qualificado
Investigação aponta motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vítima. Soldado permanece em liberdade, e Ministério Público deverá analisar os próximos passos.

A Polícia Civil de São Paulo concluiu o inquérito sobre a morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, baleada durante uma abordagem policial em Cidade Tiradentes, na Zona Leste da capital. A soldado da Polícia Militar Yasmin Cursino Ferreira, de 22 anos, foi indiciada por homicídio doloso qualificado, conforme informações divulgadas em 15 de outubro de 2026.
A investigação atribuiu à policial as qualificadoras de motivo fútil e emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima. A conclusão representa um novo desdobramento do caso ocorrido em 3 de abril, quando Thawanna foi atingida por um disparo de arma de fogo após uma discussão com policiais militares que realizavam patrulhamento.
Mãe de cinco filhos, Thawanna morreu após ser socorrida. Sua morte provocou manifestações de moradores, questionamentos sobre o uso da força policial e investigações conduzidas pela Polícia Civil e pela Corregedoria da Polícia Militar.
O indiciamento foi concluído em 13 de outubro, segundo a cobertura publicada no dia 15. Yasmin permanece em liberdade, submetida a medidas cautelares.
O Ministério Público deverá analisar os elementos reunidos para decidir quais providências adotar.
O indiciamento não significa condenação criminal. A policial continua amparada pela presunção de inocência, e a eventual responsabilização dependerá do devido processo legal.
O que aconteceu na madrugada de 3 de abril em Cidade Tiradentes?
A ocorrência teve início na rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes, quando Thawanna caminhava acompanhada de seu companheiro, Luciano Gonçalves dos Santos.
Uma viatura da Polícia Militar passou pelo local durante patrulhamento, e houve contato entre o braço de Luciano e o veículo.
As circunstâncias desse primeiro contato são contestadas.
Segundo a versão apresentada pelos policiais, Luciano teria se desequilibrado e atingido a viatura. O companheiro de Thawanna, por outro lado, afirmou que o veículo passou muito próximo do casal.
Após o episódio, o policial militar Weden Silva Soares, que conduzia a viatura, retornou para abordar os dois.
Uma discussão começou entre os envolvidos.
A soldado Yasmin Cursino Ferreira desembarcou do veículo e participou da abordagem. Durante o desentendimento, efetuou um disparo contra Thawanna.
A mulher foi atingida na região do tronco e morreu após ser encaminhada para atendimento médico.
A morte provocou forte reação entre os moradores da região, incluindo manifestações nas ruas de Cidade Tiradentes.
As circunstâncias da abordagem e do disparo passaram a ser analisadas pelas autoridades policiais.
Polícia Civil aponta homicídio qualificado e afasta legítima defesa
O inquérito conduzido pela Polícia Civil concluiu que existem elementos para atribuir à soldado Yasmin Cursino Ferreira a prática de homicídio doloso qualificado.
O relatório foi assinado pela delegada Luciana Lopes dos Anjos.
A investigação considerou que a reação armada foi desproporcional às circunstâncias da ocorrência.
Segundo informações divulgadas sobre o relatório, a policial teria recebido um tapa de Thawanna durante a discussão.
Mesmo considerando essa circunstância, a autoridade policial concluiu que não estavam presentes os requisitos para justificar o disparo como legítima defesa.
O indiciamento apontou duas qualificadoras:
- Motivo fútil.
- Recurso que dificultou a defesa da vítima.
A primeira se refere à avaliação de que o motivo atribuído à conduta seria desproporcional à gravidade do resultado.
A segunda envolve circunstâncias que, segundo a autoridade policial, prejudicaram a possibilidade de defesa da vítima.
O enquadramento foi realizado na fase investigatória e não representa decisão definitiva sobre a existência do crime ou sobre a responsabilidade penal da soldado.
Caberá ao Ministério Público examinar os elementos reunidos e, se houver ação penal, à Justiça avaliar os fundamentos da acusação e da defesa.
Corregedoria da PM também apontou intenção de matar
O indiciamento pela Polícia Civil ocorreu depois de uma investigação realizada pela Corregedoria da Polícia Militar.
Em setembro de 2026, a Corregedoria concluiu um relatório indicando que a soldado teve intenção de matar Thawanna durante a abordagem.
A apuração interna também apontou indícios de homicídio doloso qualificado e questionou a justificativa de legítima defesa apresentada pela agente.
O relatório levou em consideração as circunstâncias do confronto, as imagens disponíveis, os depoimentos e os elementos reunidos durante a investigação.
A Corregedoria examinou ainda possíveis infrações relacionadas à conduta funcional da militar.
As apurações da Polícia Civil e da Corregedoria possuem finalidades e competências próprias.
A Polícia Civil investiga a possível prática de infração penal e reúne elementos para a análise do Ministério Público.
Já os procedimentos internos da corporação podem examinar aspectos disciplinares e, conforme a legislação aplicável, fatos de natureza penal militar.
Quando a imputação envolve crime doloso contra a vida de civil praticado por militar estadual, o julgamento do homicídio cabe à Justiça comum, por meio do Tribunal do Júri, observadas as etapas processuais necessárias.
A existência de investigações paralelas não significa que tenha ocorrido condenação judicial ou sanção administrativa definitiva.
Imagens de câmeras corporais passaram a integrar a investigação
As gravações relacionadas à abordagem constituem uma parte importante dos elementos analisados.
A soldado Yasmin não utilizava câmera corporal durante a ocorrência.
Segundo informações divulgadas posteriormente, ela ainda não possuía o cadastro necessário para retirar e utilizar o equipamento.
O policial Weden Silva Soares, que acompanhava a agente, utilizava câmera corporal.
As imagens foram encaminhadas para análise pelas autoridades responsáveis pela investigação.
A cobertura sobre o inquérito apontou que o material disponibilizado apresentava tarjas, dificultando a observação de determinados detalhes.
A perícia não conseguiu estabelecer com precisão a distância existente entre Yasmin e Thawanna imediatamente antes do disparo.
As imagens também passaram a ser confrontadas com as versões apresentadas pelos policiais e pelas testemunhas.
A análise desses registros é especialmente relevante porque os relatos divergem sobre o início da discussão, a intensidade das agressões e a sequência de acontecimentos que antecederam o tiro.
Como partes do procedimento permanecem sob sigilo, nem todos os documentos e registros estão disponíveis integralmente ao público.
Testemunhas contestaram a versão inicial dos policiais
Após a morte de Thawanna, testemunhas relataram que a abordagem teria sido marcada por comportamento agressivo dos policiais.
Moradores afirmaram que a soldado teria desferido um chute contra a mulher antes de efetuar o disparo.
A versão apresentada pela defesa da policial, por outro lado, sustentou que a agente estava tentando interromper uma sequência de agressões.
Segundo essa narrativa, a soldado teria efetuado um único disparo para se proteger.
A defesa também afirmou que a policial solicitou socorro imediatamente após o tiro.
Essas versões foram contestadas por testemunhas e pelo companheiro da vítima.
O contraste entre os relatos motivou questionamentos sobre a proporcionalidade da força empregada.
A investigação da Polícia Civil concluiu que os elementos disponíveis não sustentavam a justificativa de legítima defesa, mas essa conclusão ainda deverá ser submetida às etapas legais posteriores.
A atribuição de responsabilidade criminal definitiva depende da análise judicial das provas, caso o Ministério Público apresente denúncia e ela seja recebida.
Tempo de socorro também provocou questionamentos
Além das circunstâncias do disparo, familiares e moradores questionaram o atendimento prestado à vítima depois que ela foi atingida.
Imagens e relatos divulgados pela imprensa indicaram que Thawanna permaneceu caída no asfalto por mais de meia hora antes da chegada do atendimento médico.
Testemunhas também questionaram a conduta dos policiais enquanto a mulher aguardava socorro.
Em abril, a Ouvidoria das Polícias de São Paulo solicitou apuração sobre possíveis irregularidades relacionadas ao atendimento.
A defesa da soldado afirmou, em manifestação anterior, que a agente havia solicitado socorro imediatamente.
O tema deve ser separado da conclusão principal do inquérito sobre o homicídio.
A apuração de eventual omissão de socorro ou outras condutas exige identificação dos responsáveis, análise das provas e definição dos enquadramentos legais aplicáveis.
O fato de o atendimento ter sido questionado não autoriza concluir automaticamente que determinada pessoa praticou outro crime.
Outro policial envolvido na ocorrência não foi indiciado
O relatório da Polícia Civil não indiciou Weden Silva Soares, policial que conduzia a viatura no momento da abordagem.
A decisão provocou questionamentos por parte dos representantes da família de Thawanna.
O advogado Wilson Ferreira, que representa o companheiro da vítima, manifestou preocupação com a ausência de indiciamento do segundo agente.
Segundo a posição dos familiares, a atuação de Weden deve ser examinada considerando toda a sequência da ocorrência, desde o primeiro contato com a viatura até os acontecimentos posteriores ao disparo.
A ausência de indiciamento significa que a autoridade policial não formalizou, naquele relatório, uma imputação criminal contra o segundo militar.
Isso não corresponde a uma decisão judicial definitiva sobre todas as circunstâncias da abordagem.
O Ministério Público poderá avaliar o material disponível e adotar as providências que entender legalmente cabíveis.
Caso foi registrado no 49º Distrito Policial e encaminhado ao DHPP
A ocorrência foi inicialmente registrada no 49º Distrito Policial de São Paulo.
Posteriormente, a investigação foi encaminhada ao Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa, o DHPP, unidade especializada da Polícia Civil.
O departamento ficou responsável pela apuração criminal das circunstâncias da morte.
Essa distinção é importante para compreender o funcionamento das instituições envolvidas.
O distrito policial responsável pelo registro inicial não necessariamente conduz todas as etapas de um inquérito.
Quando a investigação é atribuída a uma unidade especializada, a responsabilidade pela apuração pode ser transferida conforme os procedimentos da Polícia Civil.
No caso Thawanna, o 49º Distrito Policial possui relação documental com o registro da ocorrência, enquanto o DHPP participou diretamente da investigação sobre a morte.
Não há fundamento para relacionar automaticamente outros distritos policiais à reportagem apenas por atenderem regiões próximas de Cidade Tiradentes.
Ministério Público acompanha o caso e avaliará próximos passos
O Ministério Público de São Paulo acompanha os desdobramentos da morte de Thawanna desde abril.
Naquele período, o Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial, conhecido como Gaesp, instaurou procedimento relacionado à ocorrência.
A atuação de controle externo permite ao Ministério Público acompanhar a legalidade da atividade policial e examinar eventuais irregularidades.
Com a conclusão do inquérito da Polícia Civil, o órgão ministerial deverá analisar os elementos reunidos.
Entre as providências juridicamente possíveis estão o oferecimento de denúncia, a solicitação de diligências complementares ou outras medidas fundamentadas na legislação.
A apresentação de denúncia depende da avaliação do Ministério Público sobre a existência de justa causa para a ação penal.
Mesmo que uma denúncia venha a ser oferecida, o início do processo dependerá de seu recebimento pelo Poder Judiciário.
Não foi confirmada, até a data de referência desta reportagem, uma condenação criminal relacionada ao indiciamento divulgado em outubro.
O que diz a defesa da policial Yasmin Cursino Ferreira?
A defesa da policial sustentou, durante a investigação, que ela reagiu a agressões e utilizou a arma para se proteger.
O advogado Alexandre de Souza Guerreiro afirmou anteriormente que sua cliente efetuou um único disparo e solicitou atendimento médico.
A defesa também contestou as conclusões da Corregedoria da Polícia Militar.
Em manifestação divulgada em setembro, questionou o caráter do relatório interno e argumentou que a apuração havia sido realizada sem participação efetiva da defesa e do contraditório.
Ao ser informada do indiciamento pela Polícia Civil, Yasmin, acompanhada por advogado, optou por permanecer em silêncio.
O direito ao silêncio é uma garantia constitucional e não pode ser interpretado como reconhecimento de culpa.
Até a conclusão desta reportagem, não havia sido identificada nas fontes consultadas uma nova manifestação conclusiva da defesa especificamente sobre o relatório final da Polícia Civil.
A presunção de inocência permanece aplicável durante todas as etapas do procedimento criminal.
Entenda a diferença entre indiciamento, denúncia e condenação
O caso envolve três conceitos jurídicos que frequentemente são confundidos.
O primeiro é o indiciamento.
Esse ato é realizado pela autoridade policial e indica que, a partir dos elementos reunidos no inquérito, existem fundamentos para atribuir a determinada pessoa a possível autoria de uma infração penal.
O segundo é a denúncia.
A denúncia é apresentada pelo Ministério Público quando entende que há elementos suficientes para promover a ação penal pública.
O documento formaliza a acusação e será submetido à análise do Poder Judiciário.
O terceiro é a condenação.
A condenação depende do processo judicial e da apreciação das provas, com garantia de contraditório e ampla defesa.
Nos crimes dolosos contra a vida submetidos ao Tribunal do Júri, o procedimento pode envolver uma fase inicial de admissibilidade da acusação e, posteriormente, julgamento pelos jurados, quando presentes os requisitos legais.
Portanto, o indiciamento de Yasmin Cursino Ferreira não significa que ela já tenha sido denunciada, pronunciada para julgamento ou condenada.
Cada uma dessas etapas possui requisitos próprios.
Quando a legítima defesa pode justificar o uso da força?
A legítima defesa está prevista no artigo 25 do Código Penal.
De acordo com a legislação, age em legítima defesa quem utiliza moderadamente os meios necessários para repelir agressão injusta, atual ou iminente, a direito próprio ou de outra pessoa.
A existência de uma discussão ou agressão física não autoriza automaticamente o emprego de força letal.
Para examinar a justificativa, é necessário considerar as circunstâncias concretas, a intensidade da ameaça, os meios utilizados e a necessidade da reação.
A condição de policial também não elimina os limites legais do uso da força.
Agentes de segurança pública devem atuar conforme as normas aplicáveis, considerando os princípios de legalidade, necessidade e proporcionalidade.
No caso Thawanna, a Polícia Civil concluiu que a reação armada não estava justificada pelas circunstâncias identificadas.
A defesa sustenta posição diferente.
A avaliação definitiva das alegações depende das etapas processuais e da análise das provas pelas autoridades competentes.
Família aguarda responsabilização e esclarecimento das circunstâncias da morte
A conclusão do inquérito representa um avanço na investigação, mas não encerra as cobranças dos familiares de Thawanna.
Além da responsabilização pelo disparo, representantes da família questionam a atuação do segundo policial e as condições do atendimento prestado à vítima.
Os familiares também aguardam os desdobramentos da análise ministerial.
O caso provocou manifestações de moradores de Cidade Tiradentes e ampliou o debate sobre abordagens policiais, uso de câmeras corporais e fiscalização da atividade de segurança pública.
As investigações conduzidas por instituições diferentes demonstram que a responsabilização de agentes públicos pode envolver procedimentos criminais, administrativos e disciplinares, cada um com seus próprios requisitos.
A conclusão de uma dessas etapas não substitui automaticamente as demais.
O que acontece agora com o caso Thawanna?
Após o indiciamento divulgado em outubro, o principal desdobramento a acompanhar é a avaliação do Ministério Público sobre o inquérito.
Caso seja apresentada denúncia, caberá ao Poder Judiciário decidir sobre seu recebimento e o prosseguimento da ação penal.
Também poderão ocorrer novas diligências ou decisões relacionadas às medidas cautelares da policial, de acordo com as determinações das autoridades competentes.
Paralelamente, poderão surgir informações sobre eventuais providências administrativas ou disciplinares decorrentes das apurações internas da Polícia Militar.
A morte de Thawanna Salmázio permanece relevante para Cidade Tiradentes e para o debate sobre segurança pública na Zona Leste de São Paulo.
O caso envolve questões relacionadas aos limites do uso da força, à investigação independente de mortes durante abordagens policiais e ao funcionamento dos mecanismos de controle da atividade estatal.
A Banca Paulista acompanhará os próximos desdobramentos documentados, especialmente eventuais manifestações do Ministério Público, decisões judiciais e conclusões sobre a atuação dos agentes envolvidos.